Casos · 2014

Um insulto flagrado pela câmera

Uma partida de futebol. Uma torcedora foi filmada pela transmissão numa fala apontada como insulto racista a um jogador do time adversário. Em poucas horas, a busca coletiva nas redes a identificou, e as consequências foram muito além da rede.

⚠
Aviso de conteúdoEste caso envolve acusação de racismo e consequências graves para a acusada fora da rede.
Plataforma
X/Twitter + TV
Ano
2014
Tipo de alvo
Pessoa privada, tornada pública pelo próprio episódio
Crise anterior
Período saturado pelo debate sobre racismo no futebol
Acusação-tipo
Racismo — acusação que não admite defesa
Consequência material
Graves, fora da rede
Desfecho
Consumado

A tensão que já estava lá

Aquele período foi atravessado pelo debate sobre racismo no futebol brasileiro. Episódios sucessivos mantiveram o assunto no centro da conversa pública durante meses, sem que nada se resolvesse: repetiam-se as condenações, repetia-se a indignação, e repetia-se a ausência de consequência.

Quando a transmissão flagrou uma torcedora entre milhares, essa discussão sem desfecho encontrou finalmente um rosto. A acusação que se seguiu não se dirigia apenas a ela — passava por ela.

Limite dos dados: O contexto anterior é estabelecido pela cobertura de imprensa do período, não pelos dados de rede: a coleta é feita por palavras-chave do próprio episódio. Ela cobre catorze dias, a partir do dia da partida. O dia da partida, que foi à noite, não tem postagens coletadas, e em quase todos os outros o volume bate no teto do coletor, cerca de mil postagens por dia — o volume real era maior, e por isso as fases do caso não podem ser lidas pelo volume. As consequências mais graves para a acusada vieram depois do fim da coleta e não estão nestes dados. A acusada não tinha conta na rede, então não há nó "alvo" no grafo nem medida de atenção sobre o alvo. Cada estágio mostra as oito maiores ilhas de conversa do dia, mais toda ilha menor em que aparece uma instituição esportiva, um veículo de imprensa ou uma conta com papel no caso; as demais, de algumas dezenas a cerca de cem por dia, ficam fora do desenho.

O episódio, etapa a etapa

Role a página; o grafo acompanha o texto. Cada nó é uma conta; cada linha, uma interação. Todas as contas estão anonimizadas, inclusive a do alvo; empresas e instituições aparecem apenas pelo papel que cumpriram no episódio. As medidas de cada etapa vêm do banco de dados da pesquisa; o que elas significam está em Casos.

Dia 1 · gatilho

Ninguém no centro

A partida é à noite; no dia seguinte a torcedora já está identificada. A conversa é grande — o coletor chega ao teto — mas não tem forma de multidão. São mais de cem conversas pequenas e separadas, e a maior delas reúne trinta contas.

Não há nó "alvo" neste grafo. A acusada não tinha conta na rede, então fala-se dela, nunca com ela. Sem alguém a quem endereçar a menção, as contas mencionam umas às outras, as instituições esportivas e a imprensa.

991 postagens (teto do coletor) · 319 contas em 103 ilhas, a maior com 30 · centralização 0,05 · modularidade 0,60 · 44% das interações desenhadas acusam, 6% contestam
Dia 3 · conversa difusa

Sem polo

Dois dias depois, a conversa continua sem convergir. Cada ilha conversa entre os seus poucos membros, e nenhuma conta se torna referência para as outras.

Nos casos em que o alvo está na rede, é nesta fase que a estrela se forma. Aqui não há estrela possível, porque a pessoa acusada não é um nó e ninguém assume o lugar de centro. A condenação pública, registrada pela imprensa, existe; na rede, ela não tem centro.

976 postagens (teto do coletor) · 302 contas em 101 ilhas, a maior com 21 · centralização 0,04 · modularidade 0,56 · 70% das interações desenhadas acusam, 13% contestam
Dia 6 · repercussão institucional

O clube é punido, a multidão não se junta

O episódio chega às instituições esportivas, e o clube da torcedora é punido com a exclusão da competição: a sanção cai sobre um alvo secundário, não sobre ela. Na rede, isso não produz centro. O clube, as instituições esportivas e a imprensa aparecem, mas cada um na sua ilha, cercado de poucas contas — às vezes de uma só. Instituições e veículos falam, e a multidão não os toma como polo.

980 postagens (teto do coletor) · 297 contas em 113 ilhas, a maior com 16 · centralização 0,04 · modularidade 0,30 · 60% das interações desenhadas acusam, 18% contestam
Dia 7 · concentração

Um vídeo junta a conversa por um dia

No dia seguinte, um vídeo de grande alcance sobre o caso concentra a conversa, e pela primeira vez a rede ganha um centro: a maior ilha salta de dezenas para 155 contas.

O que cola a rede, portanto, não é a acusada, e sim qualquer polo mencionável. Quando um aparece, a conversa se concentra. Quando some, a rede volta a ser um arquipélago.

977 postagens (teto do coletor) · 467 contas em 115 ilhas, a maior com 155 · centralização 0,32 · modularidade 0,06 · 85% das interações desenhadas acusam, 1% contestam
Dia 13 · dispersão

A conversa acaba sem ter tido centro

No último dia da coleta restam cerca de cem contas, e a maior conversa tem seis. Dentro da rede não surge outro culpado além do clube, que desde o primeiro dia recebe uma parcela pequena das menções — no máximo, cerca de seis em cada cem.

O desenho deste caso é o oposto dos demais do acervo. Onde o alvo tem conta, a acusação forma uma estrela em torno dele. Aqui, a pessoa no centro de todo o episódio nunca aparece como nó, e o que ela sofreu depois do fim da coleta não deixa rastro nestes dados.

400 postagens · 98 contas em 36 ilhas, a maior com 6 · centralização 0,05 · modularidade 0,11 · 28% das interações desenhadas acusam, 10% contestam
Estágio 1 de 5Dia 1 · gatilho
alvo secundário
alvocontainstituiçãointeração que acusainteração que contestaoutra interaçãoCada linha é uma menção ou resposta; a cor vem da posição da postagem que a gerou. Anel tracejado: alvo secundário — conta que, no decorrer do episódio, passou a ser tratada também como alvo (rotulada "alvo secundário").
Os números do caso, dia a dia

Janela de -7 a +14 dias em torno do estopim (dia 0, linha vertical). Os tracinhos no eixo marcam as etapas narradas acima. Dias com menos de 30 contas na rede não recebem ponto nas medidas estruturais. Neste caso a coleta foi por amostra diária, com teto de cerca de mil postagens por dia: ▲ marca os dias em que o volume bateu nesse teto — ali o número é limite da coleta, não da conversa. Neste caso o alvo não aparece como conta na coleta, e a atenção sobre o alvo não se aplica.

Postagens no dia — volume coletado; ▲ = no teto do coletor
05501.100-70+7+14▲▲▲▲▲▲▲▲▲▲▲dia +1: 991dia +2: 990dia +3: 976dia +4: 991dia +5: 984dia +6: 980dia +7: 977dia +8: 996dia +9: 998dia +10: 992dia +11: 675dia +12: 1.020dia +13: 400
Contas que entram — parcela de todas as contas do episódio que aparece pela primeira vez no dia
0%35%70%-70+7+14dia +1: 10%dia +2: 10%dia +3: 9%dia +4: 8%dia +5: 8%dia +6: 9%dia +7: 8%dia +8: 8%dia +9: 7%dia +10: 8%dia +11: 4%dia +12: 7%dia +13: 3%
Atenção sobre o alvo — parcela das menções do dia dirigidas ao alvo
não se aplica: o alvo não aparece como conta na coleta
Centralização — quanto a rede do dia se aproxima de uma estrela (Freeman, grau de entrada)
0,000,501,00-70+7+14dia +1: 0,05dia +2: 0,07dia +3: 0,04dia +4: 0,04dia +5: 0,06dia +6: 0,04dia +7: 0,32dia +8: 0,06dia +9: 0,05dia +10: 0,04dia +11: 0,12dia +12: 0,05dia +13: 0,04
Fragmentação — parcela das contas do dia fora da ilha principal — quanto a conversa se divide em ilhas que não se tocam
0%50%100%-70+7+14dia +1: 91%dia +2: 92%dia +3: 93%dia +4: 94%dia +5: 91%dia +6: 95%dia +7: 67%dia +8: 90%dia +9: 87%dia +10: 89%dia +11: 84%dia +12: 94%dia +13: 94%
Para onde vai a atenção — parcela das menções de cada dia recebida por contas de instituições e pela imprensa, e por quem virou alvo depois. O resto das menções vai a pessoas comuns.
0%35%70%-70+7+14instituições, dia +1: 1%instituições, dia +2: 1%instituições, dia +3: 0%instituições, dia +4: 0%instituições, dia +5: 0%instituições, dia +6: 1%instituições, dia +7: 0%instituições, dia +8: 0%instituições, dia +9: 1%instituições, dia +10: 0%instituições, dia +11: 0%instituições, dia +12: 1%instituições, dia +13: 0%imprensa, dia +1: 22%imprensa, dia +2: 20%imprensa, dia +3: 12%imprensa, dia +4: 12%imprensa, dia +5: 17%imprensa, dia +6: 12%imprensa, dia +7: 30%imprensa, dia +8: 14%imprensa, dia +9: 9%imprensa, dia +10: 8%imprensa, dia +11: 23%imprensa, dia +12: 14%imprensa, dia +13: 17%alvos secundários, dia +1: 5%alvos secundários, dia +2: 1%alvos secundários, dia +3: 3%alvos secundários, dia +4: 4%alvos secundários, dia +5: 2%alvos secundários, dia +6: 2%alvos secundários, dia +7: 0%alvos secundários, dia +8: 1%alvos secundários, dia +9: 6%alvos secundários, dia +10: 0%alvos secundários, dia +11: 0%alvos secundários, dia +12: 1%alvos secundários, dia +13: 3%imprensaalvos secundáriosinstituições
0%35%70%-70+7+14instituições, dia +1: 1%instituições, dia +2: 1%instituições, dia +3: 0%instituições, dia +4: 0%instituições, dia +5: 0%instituições, dia +6: 1%instituições, dia +7: 0%instituições, dia +8: 0%instituições, dia +9: 1%instituições, dia +10: 0%instituições, dia +11: 0%instituições, dia +12: 1%instituições, dia +13: 0%imprensa, dia +1: 22%imprensa, dia +2: 20%imprensa, dia +3: 12%imprensa, dia +4: 12%imprensa, dia +5: 17%imprensa, dia +6: 12%imprensa, dia +7: 30%imprensa, dia +8: 14%imprensa, dia +9: 9%imprensa, dia +10: 8%imprensa, dia +11: 23%imprensa, dia +12: 14%imprensa, dia +13: 17%alvos secundários, dia +1: 5%alvos secundários, dia +2: 1%alvos secundários, dia +3: 3%alvos secundários, dia +4: 4%alvos secundários, dia +5: 2%alvos secundários, dia +6: 2%alvos secundários, dia +7: 0%alvos secundários, dia +8: 1%alvos secundários, dia +9: 6%alvos secundários, dia +10: 0%alvos secundários, dia +11: 0%alvos secundários, dia +12: 1%alvos secundários, dia +13: 3%instituiçõesimprensaalvos secundários

“Contas que entram” é a parcela de todas as contas do episódio que aparece pela primeira vez naquele dia; nos dias com ▲ no painel de postagens, ela é limitada pela coleta. Os papéis (instituição, imprensa, alvo secundário) vêm da leitura de cada caso, conta a conta, e só aparecem somados.

O que cada medida pergunta, e o que os dados dos oito casos mostram, está em Análise. Fonte: tabela diária da rede de menções, no banco de dados da pesquisa. A modularidade (na linha de números de cada etapa, acima) não entra nas curvas porque cresce com o tamanho da rede e confundiria fragmentação com volume.

Leitura girardiana

É o caso mais extremo do acervo: a violência simbólica transbordou da rede para a vida da acusada. Aqui o equivalente funcional da expulsão arcaica deixa de ser só funcional.

Os quatro sinais aparecem com clareza quase didática. A crise anterior existia e estava documentada. A acusação era das que não admitem defesa. E os sinais vitimários eram máximos: uma pessoa privada, sem cargo, sem instituição, sem assessoria e sem nenhum grupo que a reconhecesse como sua — numa arquibancada com milhares de pessoas, foi a que a câmera pegou.

A função simbólica se cumpriu: ela passou a encarnar, para muitos, o racismo que se discutia, papel desproporcional em relação a ser uma entre muitas.

Sobre o mérito. Esta análise não relativiza o ato. O que ela descreve é a distância entre ele e o que se seguiu fora da rede, e a função que essa desproporção cumpriu para um país que discutia racismo sem chegar a lugar nenhum.

Fontes: Cobertura de imprensa do período. Coleta própria no X/Twitter (14 dias a partir do dia da partida, cerca de 12 mil postagens).

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