Sobre

Sobre este site

Este projeto nasce de uma pesquisa que tenta responder a uma pergunta simples: é possível medir o mecanismo do bode expiatório enquanto ele acontece? A resposta que os dados sugerem é que sim — episódios de cancelamento deixam assinaturas de rede reconhecíveis: concentração de atenção, centralização sobre o alvo e uma cicatriz estrutural que persiste depois do pico.

Nosso trabalho combina dados empíricos do X/Twitter com um modelo baseado em agentes sobre uma rede de mundo pequeno, que gera, com regras simples, padrões da mesma forma — uma hipótese executável, não uma reconstrução dos casos. Publicamos aqui a parte que pode ser útil para além da academia.

O projeto é conduzido por Carlos Paes, pesquisador independente, cientista de dados com pós-graduação pela PUC-Rio. Ver contato →

O código de análise está disponível para pesquisadores, mediante solicitação pelo e-mail [email protected].

Método

Coleta. Postagens públicas do X/Twitter, em português, reunidas pela busca da plataforma — em seis casos pelo nome e pelo perfil da pessoa; nos dois em que ela não tinha conta, por palavras-chave e hashtags do episódio —, em janelas de 8 a 29 dias em torno do estopim (num dos casos, o ano inteiro, com análise de três meses). São de 2,5 mil a 23 mil postagens por caso. Em quatro casos a coleta foi por amostra diária, com teto de cerca de mil postagens por dia; nesses casos, os dias em que o volume bateu no teto aparecem marcados (▲) nas curvas. A busca também não devolve compartilhamentos simples (retweets). As consultas exatas não são publicadas, porque contêm o nome das pessoas envolvidas. O contexto anterior a cada episódio — a discussão que já corria — vem da cobertura de imprensa; quando a coleta alcança dias antes do estopim, ela registra a conversa em torno da pessoa ou do episódio, não essa discussão.

Tratamento. Deduplicação, filtragem de idioma e normalização de identificadores. Cada dia vira uma rede dirigida de menções e respostas: cada conta é um nó, cada menção ou resposta é uma ligação.

Medidas. Quase todas descrevem a estrutura da rede, não o conteúdo das postagens: volume, concentração das menções recebidas (Gini), centralização de grau de entrada (Freeman), parcela da atenção dirigida ao alvo, fragmentação em ilhas e modularidade (Louvain, sobre a ilha principal); e, a partir de papéis atribuídos por leitura de cada caso e publicados só somados, a entrada de contas a cada dia, a atenção dirigida a instituições, à imprensa e a alvos secundários, e o tempo entre a cobrança a uma instituição e a resposta dela. A única medida de conteúdo é a posição da postagem: um classificador de linguagem, treinado nesta pesquisa, atribui a cada postagem uma de três posições — acusa, contesta a acusação ou nenhuma das duas. A posição é da postagem, nunca da conta, e sai do banco só de forma agregada: nos grafos, como cor de cada interação (a cor da postagem que a gerou) e como proporção do dia; em Análise, como parcela diária das postagens de cada posição e como totais de mudança de lado por caso. Nenhuma posição de conta é publicada — as medidas de mudança de lado consideram internamente as postagens de cada conta, mas só saem do banco como totais por caso —, e a classificação é automática, sem revisão postagem por postagem. As perguntas por trás de cada medida estão em Análise.

Critérios de publicação

Estas regras valem para todos os casos e são aplicadas antes de qualquer publicação:

  • Ninguém é nomeado, nem o alvo. O caso é identificado pela transgressão, pelo ano e pela natureza do alvo.
  • Nenhum identificador sai do banco da pesquisa. Os grafos publicados não têm nome, perfil, @, pseudônimo nem contagem por conta: cada nó é só posição no desenho, tamanho em faixas e tipo (alvo, conta, instituição e, quando existe, alvo secundário — a conta que, no decorrer do episódio, passou a ser tratada também como alvo, marcada com um anel tracejado). Cada ligação leva a cor da posição da postagem que a gerou — acusa, contesta ou nenhuma das duas —, e só isso.
  • Só contas com cinco ou mais ligações no dia são desenhadas uma a uma. As demais entram como amostra, sem nenhum atributo, só para dar a forma da conversa.
  • Instituições e veículos aparecem pelo papel, nunca pelo nome; recebem rótulo (“instituição A”) só quando são até quatro no desenho do dia.
  • Rede mínima. Dias com menos de 30 contas na rede não são desenhados nem recebem medidas estruturais.
  • Nenhuma medida por conta. Os números publicados são do dia ou do caso, nunca de uma conta.
  • Pessoa privada. Quando o alvo não é figura pública, a página do caso fica fora dos buscadores e o texto omite os elementos que permitiriam identificá-la; decisões sobre instituições envolvidas aparecem só pelo papel, sem nome, e datadas em dias contados a partir do estopim.
  • Sem texto de postagem e sem capturas de tela. Conteúdos são descritos, não reproduzidos.
  • Revisão antes de publicar. Cada publicação ou alteração de caso é revista e registrada internamente, com data e fontes.

René Girard

A base teórica é a teoria mimética de René Girard, e em particular O bode expiatório (1982) — livro em que ele formula os quatro estereótipos da perseguição que organizam a leitura dos casos deste site. Para começar: verbete na Wikipédia, Internet Encyclopedia of Philosophy, e o Colloquium on Violence & Religion.

Privacidade, identificação e remoção

Este site publica episódios reais. Isso impõe regras explícitas — resumidas aqui e escritas por inteiro na Política de Dados, que vale em caso de divergência:

  • Nenhuma pessoa é nomeada, nem o alvo. Cada caso é identificado pela transgressão que o desencadeou, pelo ano e pela natureza do alvo (figura pública ou pessoa privada). Empresas e instituições aparecem pelo papel que cumpriram, não pelo nome.
  • Os episódios são reais e públicos. Quem os conhece pode reconhecê-los; o site não acrescenta nada ao que já era público e não atribui conduta a ninguém identificável.
  • Nenhuma conta aparece com rótulo de posição ou de conduta. Os grafos mostram a forma da rede — quem menciona quem — e a posição de cada postagem que gerou uma ligação (acusa, contesta ou nenhuma das duas), sem identificar ninguém: a posição é da postagem, não da conta, e nenhum nó é marcado como acusador ou defensor. Publicar a rede de quem atacou alguém seria reproduzir o mecanismo, não estudá-lo.
  • Sem capturas de tela com identificadores legíveis. Conteúdos são descritos ou redesenhados.
  • Relatos enviados pelo site permanecem privados, acessíveis apenas ao pesquisador, e usados só para pesquisa — em publicações, sempre de forma agregada ou desidentificada.

Os dois formulários. O site não guarda o que você escreve em banco de dados: cada envio vira um e-mail para uma caixa do projeto. No caminho, a mensagem passa por um serviço de envio de e-mail (Resend, nos Estados Unidos), que guarda uma cópia do e-mail — texto, assunto e endereços — por 30 dias, para registro técnico do envio, e a apaga depois disso (cópias de segurança do serviço duram até 7 dias a mais). Em seguida a mensagem fica guardada na caixa do projeto, como descrito a seguir. Em Conte seu caso o relato é dado de pesquisa, registrado com o consentimento que você marcou (o texto de consentimento é datado, para que se saiba qual versão você leu) e guardado por até 6 meses a contar do recebimento; depois disso o texto é apagado, e ficam só resultados já anonimizados de análises agregadas. Em Estou passando por isto a mensagem é conversa, não dado, enviada com uma caixa de consentimento própria, também datada: depois de passar pelo serviço de envio, fica na caixa de e-mail enquanto a conversa durar e é apagada quando você pedir, quando ela terminar ou, no máximo, 6 meses depois da última mensagem. Para conter abuso, o site limita o número de envios por conexão por hora; para essa contagem guarda, por no máximo uma hora, um código derivado do endereço de rede — não o endereço —, que não entra no e-mail. Em qualquer dos dois, você pode pedir a exclusão do que enviou a qualquer momento.

Quem responde pelos dados. O controlador dos dados tratados por este site é Carlos Paes, pessoa física, pesquisador independente, que também exerce a função de encarregado — [email protected]. Em Conte seu caso, além do consentimento, a pessoa concede ao projeto uma licença gratuita e não exclusiva para citar e traduzir trechos desidentificados do relato em análises e publicações de pesquisa; o texto completo está no próprio formulário.

Pedido de revisão ou remoção: qualquer pessoa citada pode solicitar correção, anonimização adicional ou remoção. Escreva para [email protected]; respondemos em até 7 dias, e a pessoa que pediu é informada da decisão e do que foi alterado.

Resultados quantitativos são apresentados de forma agregada, com foco em padrões estruturais e não na exposição reputacional de indivíduos. O objetivo é analítico: compreender a convergência, não alimentá-la.