O mecanismo do bode expiatório
Quando a tensão em um grupo cresce sem ter para onde ir, ela tende a encontrar uma saída: alguém. Não qualquer alguém — de preferência uma pessoa que já esteja em posição frágil, e cuja acusação possa ser repetida por todos ao mesmo tempo sem custo. Quando a acusação converge, o grupo experimenta um alívio real. E é justamente esse alívio que faz a acusação parecer verdadeira.
René Girard chamou isso de mecanismo vitimário. Sua tese central é que a violência humana é mimética: nós desejamos o que os outros desejam e acusamos quem os outros acusam. Por isso a acusação se espalha por imitação, e não por convencimento. Ninguém precisa examinar as provas — basta ver que todos os outros já se decidiram.
O que muda nas redes sociais não é o mecanismo; é a velocidade, a escala, e o fato de que, pela primeira vez, ele deixa rastro mensurável.
Antes de tudo: isto não é uma tese sobre inocência
Nenhum caso aqui é apresentado como injustiça pura, e não estamos afirmando que as pessoas documentadas sejam inocentes. Em vários casos, o que foi dito ou feito foi amplamente reprovado. O que descrevemos é outra coisa: elas foram usadas de modo desproporcional para uma catarse coletiva — o grupo precisava descarregar uma tensão que já existia antes delas, e encontrou nelas um rosto.
A observação decisiva é esta: o mecanismo é exatamente o mesmo quando a acusação procede e quando não procede. A forma da convergência não muda em função do mérito. É por isso que ela não serve como prova de nada — e é pelo mesmo motivo que ela não absolve ninguém.
Os quatro sinais da perseguição
Em O bode expiatório, Girard observa que, sempre que o mecanismo opera, quatro coisas aparecem juntas — ele as chama de estereótipos da perseguição. Nos episódios que documentamos, os quatro estão lá, e quase sempre nessa ordem.
1 · A crise que já estava lá
A tensão vem antes da vítima, e é sobre outra coisa. Algum assunto já dividia o grupo sem encontrar resolução. A vítima não causa a crise: ela é o que a crise encontra.
Quando um apresentador defendeu ao vivo a existência de um partido nazista, já corria a discussão sobre se o movimento então no poder era ou não uma forma de nazismo. Quando um escritor ironizou o assassinato de um comentarista político, a morte já havia dividido quem comemorava de quem lamentava. Quando uma participante de reality show foi vista usando o debate sobre racismo contra outra, esse debate estava no auge. Em cada caso, a tensão procurava um rosto.
Esse contexto anterior é estabelecido pela cobertura de imprensa e pelo histórico público da discussão — não pelos nossos dados de rede. A coleta seguiu a pessoa ou o episódio: na maior parte dos casos começa perto do estopim e, quando alcança dias ou semanas antes, registra a conversa em torno da pessoa, não a discussão que a antecedia.
2 · A acusação que não admite defesa
As acusações contra bodes expiatórios são notavelmente repetitivas. Girard mostra que, através dos séculos, são quase sempre as mesmas: crimes que atacam o que funda a ordem — parricídio, incesto, envenenamento, sacrilégio. Não porque as vítimas os tenham cometido, mas porque essas acusações têm uma propriedade específica: tornam a defesa impossível. Quem defende o acusado passa a ser suspeito da mesma coisa.
Hoje, as acusações com essa propriedade são, sobretudo, pedofilia, nazismo e racismo. E há um detalhe temporal importante na leitura dos casos, apoiada na cobertura de imprensa: a acusação-tipo costuma ganhar força pouco antes do pico, não no início. Ela não é o que dá partida à mobilização — é o que a converte em unanimidade. Nos dados, o que aparece primeiro é o ato — o que foi dito ou feito, mais nomeado nas primeiras horas do episódio (Análise); a passagem do ato para a acusação-tipo não é medida diretamente. O instante em que a conversa passa de “ele disse uma besteira” para “ele é nazista” é o instante em que discordar deixa de ser barato.
3 · Quem pode ser vítima
Girard insiste que a vítima não é selecionada pela diferença extrema, mas pela diferença dentro do sistema: quem não se encaixa bem nas categorias disponíveis. Dentro o bastante para importar, fora o bastante para ser descartável — sem um grupo que o reconheça como seu e apareça para defendê-lo. Nos nossos casos isso aparece de dois modos. Às vezes como um isolamento prévio discreto, que a crise converte em isolamento súbito. E, em dois casos em que a coleta alcança os dias ou semanas anteriores, como o contrário: a pessoa já era o centro de outra polêmica, exposta, e a crise encontrou nela um rosto que já estava à vista.
Há um segundo critério, mais preciso: o ato do alvo cristaliza num caso concreto a disputa que estava no abstrato. Discutia-se nazismo, e ele defendeu um partido nazista. Discutia-se se celebrar a morte de um adversário era aceitável, e ele ironizou uma morte. Discutia-se racismo, e ela foi vista usando o antirracismo como arma contra outra pessoa. O alvo é quem dá corpo ao que estava sendo discutido — e por isso serve tão bem.
4 · A convergência
É a parte visível, e a única que aparece inteira nos nossos grafos: a atenção se concentra, as interações convergem para um nó só, as divisões internas do grupo se dissolvem e, quando o mecanismo se completa, a pessoa no centro tende a ser falada mais do que falada com. Na leitura de Girard, enquanto alguém ainda fala com ela — e sobretudo quando quem fala com ela a defende —, o mecanismo não se completa; nos casos deste acervo, a sanção veio às vezes com a pessoa ainda interpelada (Análise).
É também a parte que o grupo não consegue enxergar enquanto a faz. Girard chama isso de desconhecimento: os participantes de uma perseguição coletiva nunca se veem como perseguidores — veem-se como quem finalmente reagiu.
O dilema de quem está no centro
Quem está no centro da convergência enfrenta uma escolha em que nenhuma saída é boa. É o que chamamos de dilema do bode expiatório.
Se aceita a acusação, aceita também o que veio junto com ela. A essa altura, a acusação já não é a do primeiro dia: cresceu até a acusação-tipo, e o pedido de desculpas passa a valer como confissão dela inteira.
Se recusa, a recusa é lida como prova. Para o grupo, quem se defende confirma que o perigo era real. Cada resposta vira um novo gatilho, e a perseguição se prolonga.
As duas saídas custam caro, e o desfecho não depende só de quem está no centro. Nos casos deste acervo, nem uma defesa precoce e organizada impediu a sanção. O que muda quando alguém fala com a pessoa, e não apenas dela, é outra coisa: ela continua sendo alguém com quem se conversa.
Descrever o dilema não é recomendar nenhuma das duas saídas. É mostrar que a sensação de que tudo o que se faz piora as coisas não é um erro de quem está no centro: é a forma da armadilha.
E depois: a vítima vira símbolo
Terminado o episódio, a pessoa não volta a ser uma pessoa. Ela vira a ilustração de uma regra: isto não se faz. O nome passa a funcionar como advertência, às vezes como substantivo comum. Nos dados, a conversa se desloca da pessoa para a norma — no caso do partido nazista, do que o apresentador disse para a responsabilidade das plataformas.
É o que Girard descreve como dupla transferência: a vítima, expulsa como causa da desordem, retorna como fundamento da ordem nova. E é o que explica algo que quem passa por isso costuma achar incompreensível — por que pedir desculpas não encerra nada. A essa altura já não se trata de você: trata-se da regra que está sendo estabelecida com o seu nome.
Vocabulário
Mimese
A acusação não se propaga porque convence, mas porque é imitada. Cada nova adesão torna a próxima mais barata.
Triangulação
A acusação passa adiante para aliviar quem a recebe. Quem é apontado tende a apontar um terceiro e, ao fazer isso, se alinha a quem o acusou. A lógica cabe numa frase: eu posso não ser você, mas pelo menos não sou ele. A forma disso, em desenhos, está em A Forma.
Indiferenciação
Antes da crise, o grupo está dividido em campos. Durante, as divisões desaparecem: quase todos passam a dizer a mesma coisa. Nos dados, isso aparece de dois modos: a rede do dia vira uma estrela em torno do alvo, ou se achata quando todos dizem a mesma coisa sem precisar de centro. Depois, ela não volta aos campos de antes: fragmenta-se em ilhas menores e mais numerosas.
Unanimidade violenta
Na leitura de Girard, o mecanismo só se completa quando não sobra voz discordante audível, e uma minoria organizada e visível bastaria para travá-lo. Nos seis casos deste acervo em que a sanção veio, não bastou: a contestação esteve presente desde o primeiro dia, às vezes organizada, e a sanção veio mesmo assim (Análise).
Vítima substitutiva
Se o alvo original sai de cena, a tensão não desaparece: ela migra. Foi o que aconteceu no caso do partido nazista, com os patrocinadores primeiro e depois com outras figuras ligadas ao episódio; e no caso da performance no museu, com o próprio museu e, depois, com quem defendeu a obra.
Resíduo sacrificial
Depois do pico, a rede não volta ao que era: nos dados, ela se dispersa em ilhas menores e mais numerosas do que antes, sem se reconciliar em torno de nada. É o resíduo estrutural do episódio.
Por que isso importa se você está passando por isso
Porque muda o que a experiência significa. A sensação de que “todo mundo, de repente, ao mesmo tempo” concluiu algo sobre você não é paranoia nem prova: é a forma que o mecanismo tem. A convergência é um efeito de rede, não um veredito.
Quatro coisas decorrem disso — e nenhuma delas depende de você ter razão ou não:
- A crise não era sua. Ela já existia, sobre outro assunto, e procurava um rosto.
- Você não foi escolhido por ser pior. Foi escolhido por estar mal posicionado, e por ter dado forma concreta a uma discussão que já estava no ar.
- Você deixou de ser uma pessoa e virou uma regra. É por isso que o pedido de desculpas não encerra: já não é sobre você.
- Não havia resposta certa. Desculpar-se pode ser lido como confissão; defender-se, como prova. A resposta perfeita que você acha que deixou de dar não existia.
Nada disso faz a dor passar, e nada disso decide se você errou — essa questão é separada, e continua sendo sua. Mas retira da experiência a interpretação mais cruel, que é a de que tanta gente não poderia estar errada ao mesmo tempo.
Para ir à fonte: René Girard (Wikipédia) · Internet Encyclopedia of Philosophy · Colloquium on Violence & Religion. Obra recomendada para começar: O bode expiatório, de René Girard.