O que os dados mostram, e o que ainda não mostram
Cada gráfico deste site nasceu de uma pergunta. Algumas, os dados dos oito casos já respondem, ao menos em parte; outras continuam em aberto, e dizemos por quê. As duas listas estão aqui, com o mesmo cuidado: o que medimos, o que vimos e o que os números não permitem afirmar.
As medidas são de rede — quem menciona quem, em que dia — ou de posição das postagens — se acusam, contestam ou nenhuma das duas —, e nenhuma é de uma conta individual. Os papéis que aparecem abaixo (instituição, imprensa, alvo secundário) foram atribuídos por leitura de cada caso, conta a conta, e são publicados somados; a única exceção é o alvo secundário, que aparece no grafo do caso com um anel tracejado, porque é parte do que o episódio narra. Em cada pergunta, o gráfico reúne os oito casos alinhados pelo estopim: cada caso é uma linha fina; a linha grossa é a mediana. Os painéis caso a caso estão em Casos e, para cada episódio, em “Os números do caso”, na página dele.
Perguntas que os dados respondem
A conversa converge para uma pessoa?
Como medimos. A parcela das menções de cada dia dirigida ao alvo, e duas medidas da forma da rede: a centralização (quanto a rede do dia se parece com uma estrela) e a concentração das menções recebidas (Gini).
Cada linha fina é um caso, alinhado pelo estopim (dia 0, linha vertical); a linha grossa é a mediana dos casos com dado naquele dia, desenhada só quando há pelo menos quatro. Passe o cursor sobre uma linha para ver o caso.
O que os dados mostram. A convergência aparece, mas não sempre do mesmo jeito. Encontramos quatro formas: a estrela em torno do alvo, nos casos em que ele tem conta; a estrela em torno de outro polo — uma instituição, um programa de TV ou um veículo; o arquipélago, em que a conversa se divide em dezenas ou centenas de ilhas que não se tocam; e a estrela de um dia só, em que o alvo vira centro apenas no dia em que a exclusão se consuma. Em alguns casos a atenção sobre o alvo passa de metade das menções do dia; em outros, cai rápido e migra para outras contas.
O que não dá para dizer. Quando o alvo não tem conta na plataforma, a atenção sobre ele é zero por construção: a medida não se aplica, e a forma da rede passa a ser a principal evidência.
Quem entra na conversa, e quando?
Como medimos. Para cada dia, a parcela de todas as contas do episódio que aparece pela primeira vez — escrevendo ou sendo mencionada.
Cada linha fina é um caso, alinhado pelo estopim (dia 0, linha vertical); a linha grossa é a mediana dos casos com dado naquele dia, desenhada só quando há pelo menos quatro. Passe o cursor sobre uma linha para ver o caso.
O que os dados mostram. Três ritmos. Em alguns casos a entrada se concentra nos primeiros dias depois do estopim e depois se esgota. Num deles, quase sete em cada dez contas do episódio entram num único dia — o dia em que a exclusão se consuma. Nos demais, a entrada é plana: em torno de um vigésimo a um décimo das contas por dia, por uma a duas semanas.
O que não dá para dizer. A entrada plana aparece nos casos coletados por amostra diária, em que o instrumento devolve no máximo cerca de mil postagens por dia (os dias no teto estão marcados com ▲ nas curvas). Nesses casos, a forma é limite da coleta, não necessariamente da conversa.
As instituições reforçam o mecanismo?
Como medimos. A parcela das menções do dia dirigida a contas de instituições — empresas, emissoras, partidos, órgãos públicos. E, nos casos em que a coleta foi contínua, duas horas: a primeira vez que a conta de uma instituição é mencionada depois do estopim (a instituição é cobrada) e a primeira postagem própria dela na conversa (a instituição fala).
O quadro rola para o lado →
Cada linha fina é um caso, alinhado pelo estopim (dia 0, linha vertical); a linha grossa é a mediana dos casos com dado naquele dia, desenhada só quando há pelo menos quatro. Passe o cursor sobre uma linha para ver o caso.
O que os dados mostram. Em parte dos casos as instituições estão no centro desde o primeiro dia — num deles, recebem um terço das menções no dia do estopim; em outro, elas voltam a ser mencionadas ao longo de todo o episódio. Em outros, quase não aparecem. Nos três casos em que é possível medir as horas, a instituição é cobrada antes de falar, e fala de um a pouco mais de quatro dias depois. Em dois deles, só fala depois do dia de maior volume — quando a conversa já tinha chegado ao auge.
O que não dá para dizer. Que a cobrança causou a resposta: a ordem dos acontecimentos não prova causa, e a instituição pode ter agido por motivos que não passam pela rede. Três casos também são poucos para falar em regra. Muitas ações institucionais — uma demissão, um contrato rompido — acontecem fora da plataforma e não aparecem nestes dados.
Que lugar a imprensa ocupa na conversa?
Como medimos. A parcela das menções do dia dirigida a contas de veículos de imprensa.
Cada linha fina é um caso, alinhado pelo estopim (dia 0, linha vertical); a linha grossa é a mediana dos casos com dado naquele dia, desenhada só quando há pelo menos quatro. Passe o cursor sobre uma linha para ver o caso.
O que os dados mostram. Na maior parte dos casos a imprensa recebe uma fatia pequena das menções. Num deles, porém, ela é o principal destino da conversa: por mais de uma semana, recebe entre um quarto e mais da metade das menções de cada dia.
O que não dá para dizer. Se a imprensa puxou ou acompanhou a conversa. Mencionar um veículo pode ser repercutir uma notícia, cobrar uma cobertura ou contestá-la.
O mecanismo para na pessoa acusada?
Como medimos. A parcela das menções dirigida a contas que, em algum momento do episódio, passam a ser tratadas também como alvo — desde antes de virarem alvo, para ver quando a atenção chega a elas.
O que os dados mostram. Em três casos a acusação se estende a outras contas — em dois deles, a uma instituição —, que chegam a receber, somadas, cerca de um décimo das menções de um dia. No caso de 2014, em que a acusada não tem conta na rede, o alvo secundário é o clube: aparece desde o primeiro dia, mas recebe no máximo cerca de seis em cada cem menções.
O que não dá para dizer. Se isso é um padrão. Só três casos têm alvos secundários identificados, e a identificação depende da leitura de cada caso.
Surge alguém que se opõe à acusação, e isso muda o curso do episódio?
Como medimos. Um classificador de linguagem, treinado nesta pesquisa, atribui a cada postagem uma de três posições: acusa, contesta a acusação ou nenhuma das duas. Publicamos só a parcela de cada posição por dia e por caso. Para ver se a oposição ganha um rosto, procuramos em cada dia uma figura de oposição: uma conta que, até ali, contestou mais do que acusou e está entre as dez mais mencionadas do dia, sem contar o alvo. Publicamos apenas o dia em que a primeira aparece, marcado na curva do caso. E medimos a parcela das menções feitas em postagens de acusação que se dirige a contas que já contestavam — se a acusação se volta contra quem a contesta.
Cada linha fina é um caso, alinhado pelo estopim (dia 0, linha vertical); a linha grossa é a mediana dos casos com dado naquele dia, desenhada só quando há pelo menos quatro. Passe o cursor sobre uma linha para ver o caso.
O que os dados mostram. A contestação está presente desde o dia do estopim em todos os casos, entre um sexto e pouco mais de um terço das postagens, e não cresce: a mediana fica entre um sexto e um quarto ao longo de todo o episódio, sem tendência. A acusação é maior no dia do estopim — mediana de seis em cada dez postagens — e cai nos três dias seguintes para pouco menos da metade; mas o que ela perde vai para postagens que não tomam partido, não para a contestação. Em dois casos a contestação chega a superar a acusação: num deles a partir do segundo dia, noutro só na quarta semana. Uma figura de oposição aparece em cinco dos oito casos, quase sempre cedo — no próprio dia do estopim ou nos cinco dias seguintes; só num caso ela aparece tarde, na segunda semana. Nos três casos sem figura a contestação é difusa, e num deles é a mais alta de todas. Depois que a figura surge, a parcela de acusação não muda de patamar. No caso em que ela mais cai naquele dia, cai junto com um salto de volume — quatro vezes mais postagens, isto é, outro público entrando —, e a maior queda da acusação de todo o conjunto, de quase seis em dez postagens para três em dez em seis dias, acontece num caso sem figura de oposição. Quem contesta raramente vira alvo: a parcela das menções de postagens acusatórias dirigida a quem contesta fica abaixo de dois por cento em quase todos os dias, e só num dia de um caso passa de um décimo.
O que não dá para dizer. Que a oposição muda o curso: a figura aparece junto com a escalada, a ordem dos acontecimentos não separa causa de coincidência, e nos casos sem figura a conversa segue o mesmo caminho. Que a contestação é defesa: a posição é da postagem, não da pessoa, e contestar a acusação não é o mesmo que defender o alvo. E os níveis exatos: o classificador acerta cerca de três em cada quatro postagens no teste e erra mais na contestação do que na acusação — a forma das curvas, o que sobe e o que cai, é mais confiável do que o nível de cada uma. Nos casos com teto diário de coleta, as parcelas são de uma amostra do dia.
Quantas pessoas mudam de lado, e quando?
Como medimos. Uma conta tem lado num dia quando publica nele pelo menos duas postagens da mesma posição, e mais dessa do que da outra; mudar de lado é ter lado num dia e o lado oposto num dia posterior. Só contas com lado em dois dias ou mais entram na conta. Publicamos totais por caso e por janela de dias — nunca a posição de uma conta, e nenhum total abaixo de cinco.
O quadro rola para o lado →
| Caso | Com lado em dois dias ou mais | Mudaram de lado | Acusação → contestação | Contestação → acusação |
|---|---|---|---|---|
| Um insulto flagrado pela câmera · 2014 | 43 | 14 | 8 | 6 |
| Uma performance lida fora de contexto · 2017 | 9 | menos de 5 | — | — |
| Escárnio de uma criança doente · 2019 | menos de 5 | — | — | — |
| Uma causa usada como arma · 2021 | menos de 5 | — | — | — |
| Defesa ao vivo de um partido nazista · 2022 | menos de 5 | — | — | — |
| Áudios gravados em zona de guerra · 2022 | 22 | menos de 5 | — | — |
| Acusações vindas de dentro · 2023 | menos de 5 | — | — | — |
| Ironia sobre uma morte política · 2025 | 11 | menos de 5 | — | — |
O quadro rola para o lado →
| Janela | Casos com alguma mudança | Mudanças de lado | Acusação → contestação | Contestação → acusação |
|---|---|---|---|---|
| dias 0 a 2 | 1 | menos de 5 | — | — |
| dias 3 a 7 | 3 | 12 | 6 | 6 |
| dia 8 em diante | 4 | 14 | 5 | 9 |
O que os dados mostram. Quase ninguém sustenta um lado. Nos oito casos, 93 contas têm lado em dois dias ou mais — até 43 por caso, e em metade deles menos de cinco —, num conjunto de milhares de contas que escrevem: o episódio é feito de quem fala uma vez. Entre essas 93, as mudanças de lado somam cerca de trinta em todo o conjunto, nos dois sentidos em proporções parecidas, e um único caso tem cinco ou mais contas que mudam. Elas vêm tarde: nos três primeiros dias não chegam a cinco; as que existem se concentram do terceiro dia em diante. Com uma régua mais frouxa — uma única postagem bastando para dar lado ao dia — quatro em cada dez contas pareceriam mudar de lado, metade para cada sentido: é a assinatura do erro do classificador em postagens isoladas, não de conversões, e por isso essa régua não é publicada.
O que não dá para dizer. Se as poucas mudanças são mudanças de opinião: com números tão pequenos, uma postagem mal classificada já produz uma. Se quem muda de lado muda o episódio: são poucas contas para pesar numa conversa de milhares. E nada sobre quem são — nenhuma conta é identificada, e a posição é da postagem, não da pessoa.
Quem contesta cedo impede a sanção?
Como medimos. Primeiro, sem olhar a posição das postagens, decidimos em cada caso se a sanção se consumou — afastamento, demissão, perda de contrato, eliminação, exclusão — e em que dia: pela parcela das postagens que dão a sanção como fato, separadas das que só a exigem, confirmada pela leitura do caso. Só depois comparamos a contestação antes e depois desse dia (nos casos sem sanção, os três primeiros dias e o restante) e medimos se ela se organiza: que parcela das menções feitas em postagens que contestam, nos três primeiros dias, vai para outras contas que também contestaram. Publicamos só os totais de cada caso.
O quadro rola para o lado →
| Caso | Desfecho | Sanção | Contestação antes | Contestação depois | Coesão de quem contesta | Coesão de quem acusa |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Um insulto flagrado pela câmera · 2014 | Consumado | dia 6 | 19% | 18% | 7% | 17% |
| Uma performance lida fora de contexto · 2017 | Não consumado | — | 11% | 15% | — | 9% |
| Escárnio de uma criança doente · 2019 | Consumado | dia 4 | 26% | 26% | 4% | 7% |
| Uma causa usada como arma · 2021 | Consumado | dia 3 | 33% | 28% | 3% | 0% |
| Defesa ao vivo de um partido nazista · 2022 | Consumado | dia 1 | 32% | 44% | 4% | 3% |
| Áudios gravados em zona de guerra · 2022 | Consumado | depois da coleta | 17% | — | 11% | 11% |
| Acusações vindas de dentro · 2023 | Não consumado | — | 33% | 35% | 15% | 4% |
| Ironia sobre uma morte política · 2025 | Consumação contestada | dia 5 | 21% | 13% | 24% | 20% |
O que os dados mostram. Não, nestes casos. Antes da sanção, a contestação ocupa entre um sexto e um terço das postagens nos seis casos em que ela se consumou; nos dois em que não se consumou, um décimo e um terço. O caso com menos contestação está entre os que não tiveram sanção, e a contestação mais alta aparece nos dois grupos. A organização também não separa: a contestação mais articulada dos três primeiros dias — um quarto das menções de quem contesta vai para quem também contesta — é a de um caso em que a sanção veio no dia 5; a segunda é a de um caso sem sanção. Depois da sanção, a contestação segue caminhos opostos: num caso se desfaz, de um quinto para um oitavo das postagens; noutro cresce até passar a acusação.
O que não dá para dizer. Que a contestação não tem efeito nenhum. São oito casos — seis com sanção e dois sem. O classificador erra mais na contestação do que na acusação. Os períodos antes da sanção têm tamanhos muito diferentes — um dia num caso; noutro, a coleta inteira, porque a sanção institucional veio depois do fim dela. E o desfecho de cada caso é uma decisão de leitura, ainda que tomada antes de olhar a posição das postagens.
A transgressão é nomeada antes da pessoa?
Como medimos. Em cada postagem marcamos duas coisas: se ela nomeia o ato — por um léxico de termos da transgressão de cada caso: o nome do crime ou do gesto, o que foi dito, a quem — e se nomeia a pessoa, pelo nome, apelido ou conta do alvo, ou por menção e resposta a ela. Publicamos só a parcela de postagens de cada dia em cada condição. A medida depende de como cada corpus foi coletado. Em seis casos a coleta seguiu o nome da pessoa, e por isso ela aparece em nove de cada dez postagens por construção; só nos dois casos coletados pelo acontecimento — os dois em que o alvo não tem conta na plataforma — a parcela que nomeia a pessoa é uma medida de verdade. Num estudo anterior desta pesquisa, a parcela que nomeia a pessoa caía no auge em três de quatro casos, e a leitura foi que a conversa se abria para o tema; a curva do ato não tinha sido medida.
Cada linha fina é um caso, alinhado pelo estopim (dia 0, linha vertical); a linha grossa é a mediana dos casos com dado naquele dia, desenhada só quando há pelo menos quatro. Passe o cursor sobre uma linha para ver o caso.
O que os dados mostram. Onde a comparação é possível, o ato vem antes e a pessoa não o alcança. No caso de 2017, nas primeiras horas o ato é nomeado em um quarto das postagens e a pessoa em uma a cada vinte; no dia seguinte o ato está em seis a oito de cada dez, e a pessoa nunca passa de um quarto, num único dia, antes de recuar — semanas depois, oito a nove de cada dez postagens ainda nomeiam o ato, e quase nenhuma a pessoa. No caso de 2014, o ato é nomeado em um quinto a dois quintos das postagens por uma semana e a pessoa em menos de uma a cada cem, com um único dia em que chega a duas em cem. Nesses dois casos a acusação se dirige ao ato e a alvos secundários — o clube, o museu —, não à pessoa: na maior parte dos dias, mais de um terço das postagens que acusam nomeiam só o ato, e quase nenhuma nomeia a pessoa. Nos seis casos coletados pela pessoa só a curva do ato é medível, e ela conta a outra metade da história. Em três deles o ato é mais nomeado no dia do estopim ou no seguinte — em quatro de cada dez postagens — e cai à metade, ou a um quarto, nos dias seguintes, enquanto o nome segue em quase todas. Em dois o ato se mantém num patamar, entre um sexto e um terço das postagens, o episódio inteiro. Num deles o vocabulário do ato só cresce depois do dia em que a exclusão se consuma. Onde há hora confiável, a parcela do ato é mais alta nas primeiras horas — num caso, quase metade das postagens da primeira hora cheia — e recua ao longo do primeiro dia.
O que não dá para dizer. Que a pessoa nunca tenha sido nomeada nos dois casos coletados pelo acontecimento: postagens que só diziam o nome, sem os termos do episódio, não entraram na coleta; o que medimos é a parcela entre as postagens sobre o episódio. Que o ato “some” nos outros seis: o léxico pega o ato dito com as palavras do caso, não por paráfrase ou ironia, e nos casos com teto diário de coleta a parcela é de uma amostra. E, com dois casos limpos, nada que valha como regra.
Perguntas em aberto
Estas perguntas orientam a pesquisa, mas os dados publicados ainda não as respondem.
Os mesmos papéis se repetem de um cancelamento para outro? É uma das perguntas centrais da pesquisa. Além da forma da rede e da posição das postagens, procuramos papéis recorrentes entre as contas que participam de um episódio: eles fazem parte do que chamamos de assinatura de um cancelamento. Alguns já aparecem nesta página — instituições, imprensa, alvos secundários. Outros são mais sutis e não se definem por quem a conta é, mas pela trajetória dela ao longo do episódio: quando entra, que posição toma, se a mantém ou a troca, e em que momento. Esses papéis ainda não foram procurados nos oito casos. Quando houver resultados, publicaremos em quantos casos cada papel aparece e o que o caracteriza no conjunto — nunca a conta que o ocupa.
Quem mais amplifica a acusação ataca vários alvos antes de convergir? Os poucos dias com dados suficientes não permitem uma resposta.
O vocabulário se fixa num signo? Esperávamos ver as hashtags de cada episódio convergirem para poucas expressões à medida que a acusação se fecha. Os dados não mostram um padrão comum entre os casos.
Leitura girardiana
Para René Girard, a perseguição coletiva tem uma forma que se repete: uma crise difusa, o contágio da acusação de pessoa a pessoa, a unanimidade de todos contra um só e, por fim, o apaziguamento. As perguntas acima são tentativas de ver cada um desses momentos na rede. A entrada de contas é o contágio; a atenção que converge para o alvo é a unanimidade em formação; a acusação que se estende a outros alvos mostra que o mecanismo nem sempre se satisfaz com uma vítima.
A unanimidade, nos números, nunca é literal. Em todos os casos uma minoria constante contesta a acusação desde o primeiro dia, e a acusação não precisa calá-la para se consumar: não cresce para engoli-la, não se volta contra ela e não a converte — o que a acusação perde com o tempo vai para quem não toma partido, não para a defesa. Para Girard, o mecanismo depende de que a multidão não enxergue a inocência da vítima, e os relatos que ele lê como reveladores são justamente os que registram uma minoria que se recusa a aderir. O que estes dados sugerem é que, na rede, essa minoria está presente desde o início e, ainda assim, o episódio segue o seu curso: a unanimidade que importa talvez seja a da atenção, não a das palavras.
Quando a pessoa tem nome e conta, a conversa tende a trocar o ato pelo nome: em três dos seis casos, o ato perde metade ou mais do seu espaço em poucos dias, enquanto o nome segue em quase todas as postagens — o nome passa a valer pelo ato, que é o que Girard descreve quando a vítima vira signo. Nos outros, o ato se mantém ou cresce, e a troca não acontece. Quando a pessoa não tem conta, como nos casos de 2014 e 2017, a multidão não tem onde convergir: a acusação permanece no ato e se desloca para quem lhe deu lugar, que passa a ser alvo secundário — o clube, o museu. É o que a hipótese da antropóloga Mary Douglas sugere — a categoria é ativada antes de haver alguém para carregá-la —, e é também o ponto em que a pergunta sobre a transgressão encontra a pergunta sobre as instituições.
O papel das instituições é uma hipótese desta pesquisa, não uma tese de Girard. Nele, as instituições aparecem de dois modos: como produto do mecanismo — o rito, a realeza sagrada e, mais tarde, o sistema judiciário, que contém a vingança ao monopolizá-la — e, nos relatos de perseguição que ele analisa, como autoridade que cede à multidão: na leitura que Girard faz da Paixão, Pilatos entrega o acusado depois que a unanimidade já se formou. A hipótese daqui é que, nos episódios em rede, a instituição que age depois do pico ratifica uma decisão que a multidão já tomou — e, ao ratificá-la, a reforça. É isso que a pergunta sobre as instituições tenta pôr à prova; por ora, os dados mostram a ordem dos acontecimentos, não o efeito.
São leituras — hipóteses que os dados ilustram, não demonstram. A teoria está em O fenômeno; a forma que a unanimidade toma, em desenhos, está em A Forma.